quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Evocação de espírito e possessão demoníaca em livro literário infanto-juvenil do MEC


Evocação é o título do livro escrito por Márcia Kupstas, com prefácio do novelista Walcyr Carrasco. Trata-se de uma obra do gênero terror, com a ocorrência de eventos sobrenaturais, destinada ao público infanto-juvenil. 



Este livro foi distribuído no começo do ano para escolas públicas de todo o país, visto que integra o acervo de livros literários selecionados em 2013, pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). De acordo com a classificação feita pelo Ministério da Educação (MEC), serve do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, ou seja, atende alunos que tenham entre 11 e 15 anos.

Ele conta aventuras de 5 adolescentes entre 12 e 17 anos, durante as férias escolares numa casa de praia do litoral norte paulista. Uma das aventuras foi brincar de consultar o sobrenatural com o jogo do copo ou tabuleiro ouija. A brincadeira, porém, fugiu ao controle do grupo com a aproximação do suposto espírito de um jovem surfista e a ocorrência de outros fenômenos sobrenaturais. 


O tabuleiro ouija que foi utilizado pelos adolescentes, com respostas sim ou não escritas em papel e o copo servindo de indicador, é uma variante do mesmo instrumento de superfície plena, letras, números, símbolos e indicador móvel utilizado pelas irmãs americanas Kate e Margaret Fox para se comunicarem com espíritos.



O livro trata de questões filosóficas e espirituais complexas como o destino, livre arbítrio, morte e pós-morte, possessão, necromancia, mediunidade, tudo de acordo com a visão da doutrina espírita. Essas questões são resolvidas ora pela narradora-personagem Magda ou pela sua avó Magdalena, professora universitária, pesquisadora e parapsicóloga.


Considerações

No anexo 1, há o testemunho da narradora-personagem dizendo que sua iniciação em experiências sobrenaturais deu-se aos 15 anos. A personagem mais nova, tem 12 anos. Coincidentemente, essa é a faixa etária de leitores recomendada pelo MEC. 

Cabem as perguntas: será que os alunos não buscarão reproduzir a experiência sobrenatural dos personagens? Quais as possíveis consequências dessa eventual experimentação, visto que trata-se de prática religiosa sujeita a efeitos concretos?

Nos anexos 2 e 3, consta a suposta conversa do grupo com o espírito do jovem surfista. 

Cabe a pergunta: qual o impacto que esta possibilidade de evocação de espírito pode ter na crença de um aluno-leitor que pertença a uma família que não acredita na comunicação dos vivos com os mortos?

Nos anexos 4 e 5, acontece o desfecho da história e onde são tratadas as grandes questões doutrinárias do livro. Uma forte defesa da doutrina espírita. 

Cabe a pergunta: embora possa ser considerado considerado ficcional e literário, não teria este livro uma função prioritariamente proselitista? 

A própria autora, em entrevista publicada no mesmo livro, admite que acredita na realidade dessas manifestações espiritualistas. Ela, no entanto, pondera que é possível aos leitores fazerem outra interpretação, creditando as manifestações sejam fantasias e no máximo, obra de fantasmas. 

Estes questionamentos se baseiam  no esforço deliberado das diretrizes educacionais públicas brasileiras pelo apagamento dos valores culturais das tradições judaica e cristã.  Os livros didáticos e paradidáticos quase não fazem mais referência à religiosidade cristã, por exemplo.  Por outro lado, privilegiam outras manifestações religiosas, principalmente aquelas ligadas à Nova Era e as espiritualistas. 

Essa política medida e consciente de desconstrução, apagamento e substituição religiosa através da escola tem trazido desconforto aos mais de 80% de cristãos (católicos e evangélicos). E é a esse grupo majoritário que pertencem as crianças, adolescentes e jovens das escolas públicas. 


Orley José da Silva, é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em estudos teológicos (SPRBC)





Anexos (complementam as informações do texto)

Anexo 1
Anexo 2


Anexo 3

Anexo 4
Anexo 5









6 comentários:

  1. Prezado Orley,

    Parabéns pelo blog e por dedicar-se a assunto tão sério.

    Sou espírita e gostaria de fazer duas observações:

    Primeiro: ainda que fosse uma obra de excelente conteúdo, segundo a perspectiva da doutrina, o MEC (e nenhum outro órgão público) deve gerir sobre assuntos religiosos. A promoção de qualquer ordem religiosa, cabe ao seus adeptos, às escolas confessionais e não ao governo. Ponto.

    Em relação a temática da obra, lhe garanto que isso não se fundamenta na doutrina espírita. Aliás, é flagrantemente contrária aos seus pressupostos. O livro da doutrina que trata de maneira mais específica sobre a comunicação com os espíritos é o Livro Dos Médiuns (uma espécie de manual para a comunicação com os espíritos). Lá há tudo um capítulo (o 18) que trata sobre INCONVENIENTES E PERIGOS DA MEDIUNIDADE. Segue o que diz o tópico seis:

    6. Será inconveniente desenvolver a mediunidade das crianças?

    — Certamente. E sustento que é muito perigoso. Porque esses organismos frágeis e delicados seriam muito abalados e sua imaginação infantil muito superexcitada. Assim, os pais prudentes as afastarão dessas idéias, ou pelo menos só lhes falarão a respeito no tocante às conseqüências morais."

    Nos anos 90 uma novela da Globo (salvo engano, o nome era Cambalacho) mostrava esse tipo de prática (brincadeira dos copos), o resultado foi desastroso. Muitas crianças, jovens e famílias tiveram problemas por consequência disso. Temo que o mesmo possa se dar com esse livro.

    Saudações,
    Julio

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  2. Parabéns as o autor da matéria e ao comentarista Júlio, pois ambos explanaram suas idéias com maturidade e sabedoria.

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  3. Acredito que assunto sobre religião cabe aos pais dos alunos e não a escola, assim como a educação e respeito

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  4. Parabéns pelo trabalho! Como professora, passarei a dedicar atenção especial ao que meus alunos pegam nas bibliotecas. (obs. ensino fundamental);

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  5. Sou professor e pastor, trabalho com projetos culturais e educacionais e tenho aprendido e exercitado a Escola como um espaço histórico e geografico quando limitada ao seu ambiente físico, como lugar do debate. Em momentos de confrontos como esse oriento meus alunos a ouvirem seus pais e seus orientadores religiosos. Esse tipo de doutrinação ocorre em musicas, novelas, filmes, livros, e mesmo conversas entre grupos na escola e pasmem nos jogos a que eles tem acesso pela internet, portanto o assunto transcende as bibliotecas escolares onde acredito serem menos perigosos quando os pais estão atentos. Acredito ainda que sofreremos maiores prejuizos que desejarmos estabelecer um critério daquilo que o MEC pode ou não publicar e distribuir, é mais facil combater males ideológios por meio do diálogo que por meio de Leis e artifícios de censura. A Alemanha fez isso, e deu no que deu. É facil combater ideologias pela força, dificil é produzir obras literárias, filmes, e musicas, peças teatrais, que atraiam mais ou que influenciem mais. Se a questão é defender os principios judaicos cristãos, então que as igrejas produzam obras de valor e distribuam nas escolas, divulguem e as tornem acessiveis à população. Ideias se combatem com ideias...Vamos trabalhar....

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  6. Na minha época liamos Machado de Assis, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, etc. De vez em quando um professor menos clássico sugeria Jorge Amado. Agora é isso, independente de qualquer vínculo religioso, oferecem um livreco que plageia filmes de terror de quinta categoria. É a literatura brasileira no fundo do poço!

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